Suprema Corte dos EUA anula decisão de juíza e abre caminho para demissões em massa de Trump

Suprema Corte dos EUA anula decisão de juíza e abre caminho para demissões em massa de Trump

Juízes federais atendem pedido de emergência do governo; legalidade dos cortes ainda será julgada

WASHINGTON – O governo dos Estados Unidos recebeu a autorização da Suprema Corte nesta terça-feira, 8, para realizar demissões no serviço público federal e desmantelar a estrutura de agências. A decisão pode resultar na perda de empregos para milhares de funcionários públicos americanos, em áreas como o Departamento de Estado, do Tesouro e de Habitação e Desenvolvimento.

O caso significa um teste crucial do tamanho do poder do presidente Donald Trump para reestruturar o governo federal sem participação do Congresso. Tecnicamente, a decisão dos juízes é temporária e orienta como o governo pode agir enquanto os planos de Trump são desafiados judicialmente. Mas, na prática, significa que o presidente pode prosseguir com a reestruturação até que a questão seja julgada em definitivo.

 

Imagem do dia 27 de junho mostra sede da Suprema Corte, em Washington. Juízes decidiram favorável a Trump em uma série de questões
Imagem do dia 27 de junho mostra sede da Suprema Corte, em Washington. Juízes decidiram favorável a Trump em uma série de questões Foto: Haiyun Jiang/NYT

Em uma decisão de dois parágrafos, os juízes da Suprema Corte dizem ter concluído que o governo “provavelmente terá sucesso” na defesa de que o decreto no qual Trump expôs os planos de cortes é legal. Os juízes acrescentam que a decisão desta terça não tem um juízo de valor sobre a legalidade das demissões ou reorganizações feitas pelo governo.

Em 27 de junho, os juízes da corte suprema também limitaram o poder de magistrados de tribunais inferiores de bloquearem as políticas de Trump.

Em um pronunciamento de 15 páginas, a juíza Ketanji Brown Jackson criticou duramente a decisão da Suprema Corte, sob o argumento de que ela mina a autoridade dos juízes de primeira instância. “(A decisão) não é apenas verdadeiramente infeliz, mas também arrogante e sem sentido”, escreveu a juíza.

Ela afirmou que “ninguém contesta seriamente” que o decreto executivo do presidente americano “levaria a enormes consequências no mundo real”, incluindo “o desmonte de grande parte do governo federal, conforme criado pelo Congresso”.

“O que uma pessoa (ou presidente) poderia chamar de inchaço burocrático é a perspectiva de um fazendeiro ter uma colheita saudável, a chance de um mineiro de carvão respirar livre da doença do pulmão negro ou a oportunidade de uma criança em idade pré-escolar aprender em um ambiente seguro”, escreveu a juíza.

Nas últimas semanas, os juízes emitiram outras decisões em pedidos de emergência que permitiram aos membros do Departamento de Eficiência Governamental obter acesso a registros confidenciais de milhões de americanos mantidos pela Administração da Previdência Social. As decisões também encerraram um programa humanitário destinado a dar residência temporária a mais de 500 mil imigrantes de países que enfrentam guerra e crise política e deram autorização a Trump para demitir dois chefes de agências independentes.

Depois que o decreto foi anunciado, diversos sindicatos e governos locais entraram com ações judiciais para tentar anulá-lo.

Em maio, uma juíza do Tribunal Distrital Federal do Distrito Federal do Distrito Norte da Califórnia, Susan Illston, suspendeu temporariamente os planos da Casa Branca para as demissões e encerramento de programas. A decisão impediu que mais de 20 agências da administração americana avançassem nos planos de cortes.

A princípio, Illston bloqueou os decretos por duas semanas. Ela expandiu o bloqueio no mesmo mês, sob o argumento de que o decreto havia criado uma ameaça aos serviços essenciais prestados pelo governo.

De acordo com a juíza, os cortes também provavelmente são ilegais sem a aprovação do Congresso. Ela concluiu que o presidente não pode conduzir uma reorganização ampla do poder executivo sem a cooperação do Congresso e precisaria seguir o processo aprovado pelo poder legislativo para reestruturação do governo. As demissões e o fechamento de agências foram congeladas de forma temporária durante a tramitação do processo.

O governo Trump recorreu da decisão, mas um tribunal de segunda instância manteve a decisão da juíza. A reação, então, foi um pedido de emergência na Suprema Corte.

Na ação, o procurador-geral americano John Sauer afirmou que a decisão do juiz de primeira instância proibiu “quase todo o poder executivo — 19 agências, incluindo 11 departamentos ministeriais” de executar os planos de Trump para reformular o governo. Para ele, a decisão de primeira instância se baseou na premissa “indefensável” de que o presidente deve ter “autorização estatutária explícita” do Congresso para agir com base em “decisões internas de pessoal do poder executivo”.

Em resposta, o sindicato dos trabalhadores federais dos EUA, autores da ação inicial, afirmaram que os tribunais inferiores determinaram corretamente que o decreto de Trump provavelmente excedeu a autoridade e violou a separação de poderes. “Por mais de 100 anos, presidentes de todo o espectro político obtiveram autorização do Congresso antes de empreender a reorganização do governo federal”, escreveram em um memorando aos juízes.

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